Do Baú:
O sol libertou-se das nuvens
branco, sorridente
E as flores
cor de um rosa desmaiado
coraram num rosa-forte
a contrastar com o verde
das folhas
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Do Baú:
Jardins intemporais
crianças felizes
um lago
longos passeios entre árvores
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Do Baú:
A solidão é tão reconfortante!
O silêncio
os livros
a lua cheia
a música
as árvores
o pôr-de-sol
o ar fresco da manhã
afagar o pêlo macio da Cleo
vaguear sem destino
escrever noite dentro
sentir a chuva cair
as noites de trovoada!
Ah, mas ler nos teus olhos
o amor e a ternura...
Não vale muito mais
a cumplicidade do amor?
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Do Baú:
Gardunha verde-névoa
do sol quente da tarde
As casas empilhadas
as árvores quietas
e esta aragem morna e sonolenta
("Do tempo dos sonhos", Beira Baixa, 1985)
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Do Baú:
Há coisas que não mudam
permanecem iguais a si mesmas.
Como o Mosqueiro com os seus rochedos, imponentes,
a capela da Senhora da Confiança, muito branca,
a torre da igreja que bate agora as horas pontuais
e certos rituais como a missa de domingo
as mesmas palavras, os mesmos gestos
as mesmas imagens, os mesmos santos.
("Do tempo dos sonhos", Beira Baixa, 1985)
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Do Baú:
O vento anima as coisas vivas
não as deixa permanecer
na quietude morna do Verão
acorda-as.
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Do Baú:
Não poderei voltar ao meu mundo-refúgio
ilha segura e perdida no tempo
ao conforto da solidão saboreada
à sensação de paz infinita
que nada pode perturbar
Vou encontrar a ponte destruída
a porta fechada
e vou desejar que isso aconteça!
Para que adormeça e permaneça
em mim
esse mundo-refúgio-ilha.
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Do Baú:
Claridade de Setembro
em que tudo é nítido
luz-sombra
e a folhagem não se dilui em verde
nem o céu em branco
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Do Baú:
Volto a casa
no silêncio de fim de tarde
silêncio absoluto
perfil de montanhas
Sou da mesma matéria dessas montanhas
desse silêncio absoluto desse fim de tarde
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Do Baú:
Saboreio de novo o verde o azul
o cintilar do sol nas árvores e no chão
os cheiros a preguiça os risos
a água tépida no rosto nas mãos nos braços
e os sons (os sons que lembram tanta coisa)
os sons da noite
acabada de anoitecer
